Metamorfose | Metamorphosis
The phantasmagoria of the non-place
(or 5 notes on Atopias)
Paradoxos
A vocação pelo paradoxo não é mera força de expressão nas obras de Thereza Salazar. Termo comum à retórica, empregado à arte, não propõe uma dissolução completa da lógica, mas de seu substrato, o paradoxo é aqui uma cisão entre elementos e linguagem, ou mais precisamente, um intervalo entre a concepção e a operação realizada nessas assemblages e desenhos. Não é apenas uma simplista contradição como a vida e a morte por exemplo, há um paradoxo maior, mais arbitrário que é evocado e parece se rearranjar infinitamente; a crença numa essência mítica que é constantemente profanada pela sua própria imagem. É um movimento dialético, pois em nenhum momento há um posicionamento sobre um polo ou outro, mas sim nesse instante entre o mentalizado e a obra. Desse interregno parece surgir uma mão interveniente de imagens imemoriais.
Apesar da ordem não religiosa do mítico, nas imagens vemos justamente a conformação de imagens gráficas, planares, que repelem bruscamente uma identidade carnal, constituindo a vontade de uma espiritualidade profana. A ferocidade afirmativa e os encontros obscuros que vemos nas imagens tornam a construção formal em paradoxo, pois são mitologias imediatamente violadas pela sua condição constitutiva. O aspecto gráfico e a representação é avesso à ilusão, como na pintura e na fotografia, o desenho do qual eles advém carregam sua manualidade reprodutível e portanto, é sempre uma construção humana e laica.
Quando nos aproximamos das colagens, e desenhos, somos convidados a entrar imediatamente nesse binômio arcaico-imemorial e rapidamente somos absorvidos pela universalidade que nos conecta num inconsciente comum, transitando para a realidade de sua impossibilidade consciente. As referências, no entanto, são truncadas, abrem caminhos para mitologias individuais, uma espécie de falta de ordem num contra-senso narrativo ou avesso à narrativa. Paradoxo esse que se estende daquele original, como os demais que iremos observar.
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Hoje estamos contaminados por imagens, cada vez mais rápidas, mais arbitrárias e reprodutivas, sob o forte controle de algoritmos a mente é sacolejada passivamente numa paisagem vertical e individual. Tudo isso teve um começo, e foi a arte gráfica o primeiro instrumento de reprodução, que nos primórdios foi capaz de transformar o desenho em múltiplo. As convenções da pintura e os modos clássicos serviram para a criação das imagens, e aos poucos foram se formalizando em sua condição plenamente gráfica, formas precisas, reduzidas à sua própria linguagem. A busca por sua essência, de matriz moderna, iria pouco a pouco impondo sua racionalidade à vida nas massas urbanas. Na contramão o sujeito cada vez mais capaz de reproduzir tudo, percebe esse caminho como um corpo doutrinário e que se dissipou numa sociedade de consumo, onde signos e símbolos não possuem corpo, ou melhor, uma história capaz de criar significados perenes, eternos e divinos. O profano e cotidiano ganham expressão singular de existência, e nesse percurso de transformação sem o peso do passado abre-se caminho para um imaginário infinito que facilmente se dissolve.
Thereza trabalha em seu atelier sobre essa consciência da linguagem gráfica, o ideal de pureza moderna é usado como fonte de uma travessia da memória, suas obras oferecem ao espectador a ciência da incapacidade de extrair uma essência, se impondo constantemente como paradoxo do sublime das imagens. Assim a condição cartesiana e esquemática das obras é modulada pela riqueza de detalhes do desenho manual, em que somos confundidos sobre o que é reproduzido e o que foi desenhado. O uso das imagens enciclopedistas, são recombinadas nessas iluminuras às avessas, pois escurecem, invertem a ordem lógica do passado e do contemporâneo.
Nos últimos trabalhos, vem surgindo um aprofundamento narrativo, uma metáfora forte ocorre com as “Carnívoras”, esses desenhos se valem do artifício gráfico para construir uma especulação sobre o desejo, ou, a pulsão de vida e de morte. Oriundas do mundo distópico que vivemos nos últimos anos, as carnívoras concentram em si aspectos contraditórios fundamentais ao trabalho da artista. Primeiro seu paradoxo de ser planta e comer “carne”, o exotismo atraente ao olhar, como nos gabinetes de curiosidade, tenta organizar o excêntrico. Mas também interessa seu sistema biológico, uma planta que alicia passivamente um inseto, para devorá-lo sem mover-se. O estímulo ao desejo é uma armadilha fatal. Mimetiza a relação que temos com essas imagens vorazes de Thereza, o ambiente metafísico bem estabelecido plasticamente atrai, para sermos repelidos pela hiena, bonita e mortal. O paradoxo recente da outorga das imagens está aí, sugiro uma mitologia; somos as carnívoras e os insetos ao mesmo tempo, predadores famintos de nós mesmos.
Pedro Nery. maio de 2022
Paradoxes
The vocation for paradox is not merely a rhetorical device in the works of Thereza Salazar. A term common to rhetoric and applied to art, it does not propose a complete dissolution of logic, but rather of its substratum. Here, paradox manifests as a rupture between elements and language—or more precisely, as an interval between conception and the operation carried out in these assemblages and drawings. It is not simply a basic contradiction such as life and death; instead, a greater, more arbitrary paradox is evoked—one that seems to rearrange itself endlessly: the belief in a mythical essence that is constantly profaned by its own image. It is a dialectical movement, as at no point is there a fixed position on one pole or another, but rather a dwelling in the instant between what is conceived and the work itself. From this interstice, there seems to emerge an intervening hand of immemorial images.
Despite the non-religious order of the mythical, what we see in these images is precisely the formation of graphic, planar compositions that sharply repel any carnal identity, constituting instead a desire for a profane spirituality. The affirmative ferocity and the obscure encounters within these images render their formal construction paradoxical, as these mythologies are immediately violated by their own constitutive condition. The graphic aspect and representation resist illusion—as in painting or photography—since the drawings from which they arise carry a reproducible manual quality and are therefore always human and secular constructions.
When we approach the collages and drawings, we are immediately invited into this archaic–immemorial binomial, quickly absorbed by a universality that connects us through a shared unconscious, only to transition into the reality of its conscious impossibility. References, however, are fragmented, opening paths to individual mythologies—a kind of disorder within a counter-narrative or even a resistance to narrative itself. This paradox extends from the original and unfolds into others we encounter throughout the work.
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Today, we are saturated with images—ever faster, more arbitrary, and endlessly reproducible. Under the strong control of algorithms, the mind is passively shaken within a vertical and individualized landscape. All of this had a beginning: graphic art was the first instrument of reproduction, capable in its early stages of transforming drawing into multiples. The conventions of painting and classical modes served to generate images, gradually formalizing into a fully graphic condition—precise forms reduced to their own language. The modern pursuit of essence slowly imposed its rationality upon life in urban masses.
Conversely, the subject—now increasingly capable of reproducing everything—comes to perceive this trajectory as a doctrinal body that has dissolved into a consumer society, where signs and symbols lack a body, or rather, a history capable of producing lasting, eternal, and divine meanings. The profane and the everyday gain a singular mode of existence, and along this path of transformation—free from the weight of the past—an infinite imaginary opens up, one that easily dissolves.
Thereza works in her studio with a deep awareness of graphic language. The modern ideal of purity is used as a source for traversing memory; her works offer the viewer the realization of the impossibility of extracting a fixed essence, constantly asserting themselves as a paradox of the sublime image. In this way, the Cartesian and schematic condition of the works is modulated by the richness of hand-drawn detail, blurring the line between what is reproduced and what is drawn. Encyclopedic imagery is recombined in these inverted illuminations, as they darken and invert the logical order of past and present.
In her most recent works, a deeper narrative dimension emerges. A powerful metaphor appears in the “Carnivores”: these drawings employ graphic strategies to speculate on desire—or on the drives of life and death. Emerging from the dystopian world we have inhabited in recent years, the carnivorous forms concentrate essential contradictions within the artist’s practice. First, their paradox of being plants that consume “flesh”; their exotic appeal, reminiscent of cabinets of curiosity, attempts to organize the eccentric. Yet their biological system is equally compelling: a plant that passively lures an insect only to devour it without movement. The stimulation of desire becomes a fatal trap.
This mirrors our relationship to Thereza’s voracious images: a carefully constructed metaphysical environment draws us in, only for us to be repelled—like a beautiful yet deadly hyena. The contemporary paradox of the agency of images lies here. I suggest a mythology: we are both the carnivorous plants and the insects at once—hungry predators of ourselves.
Pedro Nery — May 2022