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Paradoxos


 

A vocação pelo paradoxo não é mera força de expressão nas obras de Thereza Salazar. Termo comum à retórica, empregado à arte, não propõe uma dissolução completa da lógica, mas de seu substrato, o paradoxo é aqui uma cisão entre elementos e linguagem, ou mais precisamente, um intervalo entre a concepção e a operação realizada nessas assemblages e desenhos. Não é apenas uma simplista contradição como a vida e a morte por exemplo, há um paradoxo maior, mais arbitrário que é evocado e parece se rearranjar infinitamente; a crença numa essência mítica que é constantemente profanada pela sua própria imagem. É um movimento dialético, pois em nenhum momento há um posicionamento sobre um polo ou outro, mas sim nesse instante entre o mentalizado e a obra. Desse interregno parece surgir uma mão interveniente de imagens imemoriais.

 

Apesar da ordem não religiosa do mítico, nas imagens vemos justamente a conformação de imagens gráficas, planares, que repelem bruscamente uma identidade carnal, constituindo a vontade de uma espiritualidade profana. A ferocidade afirmativa e os encontros obscuros que vemos nas imagens tornam a construção formal em paradoxo, pois são mitologias imediatamente violadas pela sua condição constitutiva. O aspecto gráfico e a representação é avesso à ilusão, como na pintura e na fotografia, o desenho do qual eles advém carregam sua manualidade reprodutível e portanto, é sempre uma construção humana e laica.

 

Quando nos aproximamos das colagens, e desenhos, somos convidados a entrar  imediatamente nesse binômio arcaico-imemorial e rapidamente somos absorvidos pela  universalidade que nos conecta num inconsciente comum, transitando para a realidade de sua impossibilidade consciente. As referências, no entanto, são truncadas, abrem caminhos para mitologias individuais, uma espécie de falta de ordem num contra-senso narrativo ou avesso à narrativa. Paradoxo esse que se estende daquele original, como os demais que iremos observar. 

 

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Hoje estamos contaminados por imagens, cada vez mais rápidas, mais arbitrárias e reprodutivas, sob o forte controle de algoritmos a mente é sacolejada passivamente numa paisagem vertical e individual. Tudo isso teve um começo, e foi a arte gráfica o primeiro instrumento de reprodução, que nos primórdios foi capaz de transformar o desenho em múltiplo. As convenções da pintura e os modos clássicos serviram para a criação das imagens, e aos poucos foram se formalizando em sua condição plenamente gráfica, formas precisas, reduzidas à sua própria linguagem. A busca por sua essência, de matriz moderna, iria pouco a pouco impondo sua racionalidade à vida nas massas urbanas. Na contramão o sujeito cada vez mais capaz de reproduzir tudo, percebe esse caminho como um corpo doutrinário e que se dissipou numa sociedade de consumo, onde signos e símbolos não possuem corpo, ou melhor, uma história capaz de criar significados perenes, eternos e divinos. O profano e cotidiano ganham expressão singular de existência, e nesse percurso de transformação sem o peso do passado abre-se caminho para um imaginário infinito que facilmente se dissolve.

 

Thereza trabalha em seu atelier sobre essa consciência da linguagem gráfica, o ideal de pureza moderna é usado como fonte de uma travessia da memória, suas obras oferecem ao espectador a ciência da incapacidade de extrair uma essência, se impondo constantemente como paradoxo do sublime das imagens. Assim a condição cartesiana e esquemática das obras é modulada pela riqueza de detalhes do desenho manual, em que somos confundidos sobre o que é reproduzido e o que foi desenhado. O uso das  imagens enciclopedistas, são recombinadas nessas iluminuras às avessas, pois escurecem, invertem a ordem lógica do passado e do contemporâneo. 

 

Nos últimos trabalhos, vem surgindo um aprofundamento narrativo, uma metáfora forte ocorre com as “Carnívoras”, esses desenhos se valem do artifício gráfico para construir uma especulação sobre o desejo, ou, a pulsão de vida e de morte. Oriundas do mundo distópico que vivemos nos últimos anos, as carnívoras concentram em si aspectos contraditórios fundamentais ao trabalho da artista. Primeiro seu paradoxo de ser planta e comer “carne”, o exotismo atraente ao olhar, como nos gabinetes de curiosidade, tenta organizar o excêntrico. Mas também interessa seu sistema biológico, uma planta que alicia passivamente um inseto, para devorá-lo sem mover-se. O estímulo ao desejo é uma armadilha fatal. Mimetiza a relação que temos com essas imagens vorazes de Thereza, o ambiente metafísico bem estabelecido plasticamente atrai, para sermos repelidos pela hiena, bonita e mortal. O paradoxo recente da outorga das imagens está aí, sugiro uma mitologia; somos as carnívoras e os insetos ao mesmo tempo, predadores famintos de nós mesmos.  

 

Pedro Nery. maio de 2022

 

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