Metamorfose | Metamorphosis
The phantasmagoria of the non-place
(or 5 notes on Atopias)
Pontos Cegos — Geografias para Habitar o Mundo
Obras de Thereza Salazar
Observar o processo de criação de um artista é sempre algo que me inquieta, fascina e inspira. Por mais que acompanhe, converse e leia a respeito, sempre ficará um ponto cego, uma lacuna, que procuro habitar através da reflexão.
Partilho aqui um processo curatorial e crítico sobre a obra de Thereza Salazar. Acompanho sua trajetória e, a seu convite, pensei com ela esta exposição para o Projeto Fidalga, dentro do Programa Ponte, em diálogo com o artista residente Francesc Ruiz Abad.
Thereza é uma artista consistente, que parte de referências das artes gráficas para construir um vocabulário próprio, sofisticado e singular. Nada se apresenta de forma explícita. Mas isso não constitui uma barreira; ao contrário, é um convite ao pensamento.
Entre as obras reunidas, encontramos insetos, criaturas, jogos, diagramas, sinais de advertência e estruturas gráficas que parecem oscilar continuamente entre o natural e o construído. Elementos que à primeira vista pertencem a universos distintos revelam inesperadas zonas de contato.
Os besouros, recorrentes em sua produção, integram um universo povoado por animais, criaturas e formas que transitam entre o real e o imaginário. Ratos, formigas, cobras, pássaros e crustáceos também habitam esse repertório, compondo uma fauna singular que atravessa diferentes momentos da produção da artista. Nesse conjunto, entendo os besouros como portadores da vida. Seres que habitam e transformam o solo, escavam, protegem-se sob carapaças e deslocamse por territórios muitas vezes invisíveis ao olhar apressado. Em outra direção, surgem referências às minas terrestres e aos sistemas de sinalização criados para indicar perigo. Também elas permanecem enterradas, ocultas sob a superfície, carregando a memória de conflitos e decisões humanas.
Não se trata, entretanto, de uma representação direta da violência. Não vemos o impacto ou a destruição. O que emerge é uma reflexão mais complexa sobre os mecanismos que estruturam nossa relação com o mundo. Sistemas de proteção e ataque, estratégias de sobrevivência, formas de ocupação do território, processos de classificação e controle aparecem transfigurados em imagens que resistem a interpretações imediatas.
Nesse contexto, a obra 4Elementos assume uma posição singular. Mais do que um objeto a ser contemplado, ela introduz a participação, a escolha e a responsabilidade. O visitante é convidado a agir sobre um sistema estruturado a partir dos quatro elementos — terra, água, fogo e ar — deslocando-se da condição de observador para a de agente. Compreender deixa de ser suficiente; é necessário decidir. E toda decisão produz consequências.
É justamente nesse deslocamento que a produção de Thereza Salazar revela uma de suas maiores potências. Suas obras não oferecem respostas nem pretendem conduzir o olhar por um único caminho. Elas instauram situações de pensamento. Ao longo do percurso expositivo, torna-se possível perceber que aquilo que está em questão não são apenas os elementos representados, mas as relações que estabelecem entre si. Como camadas subterrâneas que ocasionalmente afloram à superfície, essas conexões revelam sistemas de sentido, tensões e escolhas que atravessam silenciosamente nossa experiência do mundo.
Talvez seja esta a tarefa mais generosa da arte: não eliminar os pontos cegos, mas nos ensinar a habitá-los.
Junho de 2026
Nilo de Almeida Curador